quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O dinheiro escorre pelos bueiros

Trilhões serão impressos. Olho vivo, que bueiro não tem tampa

Dos anos 50 para cá, observa-se contínua e profunda modificação na relação entre capital e trabalho. Daquela década em diante, o mundo foi conduzido, de forma planejada, a acreditar em novos valores, em nova filosofia de vida, em nova forma de atingir e assegurar a realização pessoal plena. As pessoas começaram a ver no consumo ininterrupto, e quase sempre desnecessário, a chave mágica para o status, para o sucesso, para a felicidade. Os anos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial assistiram ao surgimento da sociedade de consumo em massa. Em termos psicológicos, foi a compensação às privações sofridas durante o conflito. Sob o aspecto econômico, foi o acirramento entre liberdades capitalistas e restrições socialistas.

A partir dessa ocasião, sem que pudessem sentir, as pessoas começaram a corrida para o acúmulo de bens e para o desperdício. O governo de Dwight Eisenhower, entre 53 e 61, estimulou o aumento do consumo como forma de fortalecer a economia. A fórmula era bem simples: maior consumo gera mais produção, cria mais empregos, aumenta a arrecadação de impostos, incentiva investimentos em tecnologia, abre e conquista de novos mercados no exterior, amplia a participação da população na composição acionária das empresas, que assim se capitalizariam para produzir mais e atender ao consumo crescente. E o ciclo se fechava para girar mais rápido. Sempre mais rápido.

Foi a época de ouro da publicidade, importante propulsora do consumo. Detalhes insignificantes eram suficientes para compradores optarem por novos modelos. De um ano para outro, os carros apresentavam novidades capazes de tornar velho, obsoleto até, o carrão que meses antes era lançado como o mais avançado, confortável e seguro de todos os tempos. A obsolescência valia para o dentifrício, para o creme facial, para o liquidificado, para todos os produtos. A pasta de dentes X era a única com XRS, o desodorante Y protegia o dia inteiro graças ao exclusivo fator SM, do cloro-amino-acetino-benzol, ou alguma outra bobagem sem sentido algum para o consumidor. Importante ter algo mais. Ser aditivado. O mercado precisava reagir. Consumir mais.

Não adiantava só alargar o furo do tubo da pasta de dentes. Os produtos tinham de durar menos, ser substituídos por novos. Na moda, então, era uma loucura. Lapelas estreitas alargavam e vice-versa. Altura da saia ou largura da gravata, idem. Sapatos, roupas e complementos mudavam de estilo a cada ano. Infelizes os que não conseguissem acompanhar as novas tendências. Cada produto, um diferencial. E o consumo crescia. A economia era uma grande bicicleta, que não se podia parar de pedalar.

O modelo era exportado para o mundo todo via Hollywood, envolto pela aura da fartura, do conforto, da riqueza. Os filmes exibiam operários da construção civil, guardas rodoviários, motoristas de ônibus e detetives que moravam em casas equipadas com os mais modernos eletrodomésticos. Estados Unidos exportavam a imagem da fartura e da felicidade. Era um país em que a justiça funcionava. Moral e ética norteavam o comportamento da população e das autoridades. June Alysson, depois Doris Day, modelos de mulher.

Tal paraíso se tornou Meca para povos de toda parte. Principalmente para quem a sobrevivência implicava enfrentava sacrifícios enormes e diários. O chamado terceiro mundo e mesmo a Europa visualizavam naquele lugar generoso as oportunidades inexistentes em outras partes. A crença geral era que qualquer um teria sucesso se fosse viver nos EUA. Exemplos de êxito, de riqueza rápida, corriam o mundo. Só os Estados Unidos acenavam com meios e oportunidades. O sonho americano ganhou contornos de algo sólido, palpável.

Que diferença dos atrasados países comunistas e socialistas, em que o Estado impedia até a livre iniciativa. Países frios, austeros, gente carrancuda a lutar pela sobrevivência, sem qualquer perspectiva de conseguir ter o mínimo de conforto algum dia. Mesmo em terras consideradas democráticas os gastos, mais que comedidos, eram controlados. Só se comprava aquilo que ia ser consumido a cada refeição. Bifes, ovos, frutas e legumes eram adquiridos na medida certa para as refeições, de acordo com o número de pessoas. Tudo se aproveitava. Desperdício zero.

O mesmo com relação a roupas e objetos de uso pessoal. O combustível, então, tinha ares de preciosidade. Os carros, na maior parte desconfortáveis e de baixo desempenho, andariam só com o cheiro da gasolina, se isso fosse possível. Pouco evoluíam de um ano para outro, porque a principal função eles já cumpriam: transportar pessoas, quando não houvesse a alternativa de veículos coletivos. A mentalidade do europeu nada tinha a ver com a do norte-americano.

Em contrapartida, o ensino europeu era de superior qualidade. A cultura atingia patamares inimagináveis aos olhos estadunidenses. A assistência médica supria as necessidades. A moradia, o transporte e demais serviços públicos eram espartanos, bem de acordo com os padrões de sobriedade e bom senso. Enquanto isso, nos Estados Unidos era preciso pedalar com mais força. Empresas diversificavam negócios, se expandiam e acabavam se fundindo para formar corporações de

poder amplificado.

Era quase impossível imaginar que os estadunidenses, que sempre se disseram patriotas, passassem a montar indústrias no exterior para pagar salários mais baixos e fugir aos impostos. Logo surgiam produtos mundiais, com peças e componentes fabricados nos lugares mais incríveis. A idéia era baixar custos, lucrar mais. Nem se imaginava que a Toyota dominaria o setor automobilístico do país, desbancando GM, Ford e Chrysler ou que grandes empresas debandassem para o exterior, atrás de redução dos custos. Como a Nike outras tantas.

Na linha de frente, a defender interesses dessas imensas organizações, lobbies exerciam influência sobre políticos, líderes sindicais e congressistas, de forma a remover obstáculos e amaciar trajetórias. Agências de Relações Públicas produziam material jornalístico que, uma vez publicado, formava opinião e azeitava engrenagens. Se o sujeito criasse problemas... bem, até ontem ninguém sabia de Jimmy Hoffa, presidente do sindicato mais poderoso dos EUA, desaparecido em 1976.

Empresas diversificavam negócios, se expandiam e acabavam se fundindo para formar corporações de poder amplificado. Várias corporações já atuavam no exterior com tal desembaraço e poder que em alguns países mandavam mais que seus próprios governos. Grupos como United Fruits, GE, ITT, por exemplo, faziam o que bem entendessem, sobretudo na América Central e no Caribe. Cuba, de Fulgêncio Batista, era um prato cheio. Para as corporações e para a Máfia. Quem ainda hoje for a Havana poderá confrontar as luxuosíssimas residências dos “empresários amigos” com os prédios do El Vedado,

ali por perto do Malecón.

Algumas corporações se uniram a outras. Surgiram conglomerados de capital transmultinacional. O simples vislumbre de interesses ameaçados se tornou suficiente para provocar guerras. Do Líbano a Angola pipocaram intervenções em nome da paz, da liberdade até do divino. Pretextos inventados, mentiras repetidas à exaustão na mídia “amaciada”, pressões irresistíveis e conchavos, passou a valer tudo, de acordo com a tese de que “Nossas fronteiras vão até onde estão os interesses dos Estados Unidos”, muito em voga nos anos 90. O mundo já estava ficando pequeno.

A disseminação de bases militares e as sucessivas intervenções armadas em vários pontos da Terra ganharam volume nos últimos 20 anos. Nem antigos aliados escaparam. Caso do Iraque, apoiado durante os oito anos da guerra com o Irã, e do Afeganistão, ajudado pelos EUA ao longo dos nove anos da invasão soviética. O esbulho contra o Iraque - desculpas mentiras e pretextos - todos conhecem. Mas agora, passada a histeria causada pelo ataque doméstico de 11/9, é o caso de os EUA responderem: por que o Afeganistão em destroços teve prioridade e continua a receber reforço para as tropas de ocupação, enquanto o Paquistão, que até agora dá guarida ao talibã, continua paparicado?

Qual a razão de continuar no Iraque?

O fato é que o modelo econômico-financeiro falhou e ainda não dá para saber se terá remédio. A quebradeira é efeito do malogro. Até agora, os EUA torraram mais de U$s 13 trilhões de dólares. A União Européia, outros U$S 2 trilhões. São dez anos do PIB brasileiro. Isso é pouco, considerando o tamanho da cratera e a descoberta de novos rombos. Como fica o neoliberalismo agora que provou depender do dinheiro do estado? Não era o neoliberalismo que acreditava na infalibilidade e onipotência do “deus mercado”? Esse deus está com menos prestígio que o Seu 7 da Lira, o Exu incorporado por Cacilda de Assis e muito em moda no começo dos anos 70. (lembram dele/a?).

Pois, é. A bicicleta gigante tombou. Os EUA se transformaram numa piscina em que os ralos de polegada e meia foram substituídos por bueiros que ocupam toda superfície do piso. A ética e a seriedade de propósitos já tinham escorrido canos abaixo com os balanços financeiros forjados, com a especulação criminosa, com a avareza dos empréstimos hipotecários e com as pirâmides dos sinistros derivativos. O tirambaço supera U$S 100 trilhões. É botar dinheiro e o dinheiro sumir pelo bueiro. Tipo Doril. Com, contra ou apesar de Barack Obama, não fica nem poça no fundo desse piscinão.

Segundo a Miriam Leitão em sua
coluna do Globo, DEZ MIL famílias perdem suas casas por dia nos EUA. Agora, é questão de aritmética: 10 mil vezes 30 = 300 mil. Vezes 12 = 3 milhões e 600 mil num ano. Até o momento, os pacotes de combate à crise somam, como já disse, U$S 15 trilhões. Algo em torno de R$ 30.500.000.000,00. Logo, logo, alguns países entrarão em moratória. Correrão para auditar suas “dívidas”. Os cruéis pagamentos de juros serão suspensos.

Alguma dúvida de que o mundo como a gente conheceu terá de mudar o modelo ou irá para o vinagre?


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