Os governos ditatoriais do Egito e da Arábia Saudita encaram o Irã com desconfiança. Dá para entender: os dois temem a influência religiosa da antiga Pérsia sobre suas próprias populações e estão – como o Irã estava há 30 anos – alinhados com interesses colonialistas do Ocidente, sobretudo nas questões que envolvem petróleo, armamento e ajuda econômica. O receio maior dos países árabes é o exemplo iraniano, que em 1979 depôs o xá-ditador Reza Pahlavi.
Com cerca de 80 milhões de habitantes, o Egito está hoje entre os países da região mais beneficiados pelos dólares do petróleo carreados pela Arábia Saudita e por Emirados Árabes. Os Estados Unidos lideraram a remessa de dinheiro para lá no ano passado e corporações Citibank, General Motors e Procter & Gamble têm expressivos investimentos no país. Derrotado na Guerra dos Seis Dias por Israel, em 67, o Egito reconheceu oficialmente o estado judeu.
O capital estrangeiro, antes concentrado no petróleo e na gasolina, foi-se diversificando para fábricas de fertilizantes, produtos químicos e bens de consumo. No ano passado, mais de um terço do investimento estrangeiro foi destinado à privatização das grandes empresas estatais, como o Banco de Alexandria e a loja de departamentos Omar Effendi. As privatizações geraram desemprego em face da redução de infladas folhas de pagamento das estatais.
Nos últimos cinco anos, no entanto, a taxa oficial de desemprego caiu de 11% para cerca de 9%. Mesmo assim, existe falta de emprego. O governo egípcio não quantifica o efeito dos investimentos estrangeiros sobre o emprego. Mas a população cresce rapidamente o país precisa criar 600 mil novos postos de trabalho a cada ano para acompanhar o número de pessoas que entram no mercado. O PIB egípcio gira em torno de U$ 200 bilhões.
Com população inferior a 30 milhões de pessoas, segundo estimativa da CIA, a Arábia Saudita tem produto interno bruto superior ao dobro do egípcio e vai a U$ 500 bilhões. Nos últimos seis anos, o país tem destinado cerca de U$ 500 milhões anuais à Palestina, como apoio orçamentário. Tem também socorrido refugiados palestinos com contribuições para o órgão da ONU encarregado de obras públicas e socorro (UNRWA) – outros U$ 500 milhões entre 2007 e 2009. Além de liberar U$ 230 milhões para o desenvolvimento no Afeganistão, prometeu $ 1 bilhão em exportação e garantias de empréstimos bonificados ao Iraque, outros U$ 153 milhões em créditos à exportação para o Paquistão.e ainda U$ 1,59 bilhões para o Líbano.
Ainda assim, a monarquia saudita teme contágio da influência do Irã. O movimento islâmico do aiatolá Khomeini, que completou 30 anos nesta semana, liderou o movimento popular responsável pelo fim da dinastia Pahlevi e resultou no exílio do xá. Para o analista paquistanês Iftikhar Hussein, em entrevista à BBC - Brasil, “o Irã está hoje está no centro das questões do Oriente Médio e a maior herança da revolução é a divisão dos árabes”.
"Mesmo entre os regimes árabes, há divisões sobre a forma de lidar com os iranianos. Existem dois blocos: um liderado por Catar e Síria, bem relacionados com o Irã, e outro encabeçado pelo Egito e Arábia Saudita, alinhados com o Ocidente e hostis aos iranianos", afirma o paquistanês. Na realidade, Egito e Arábia Saudita, ditaduras, temem a influência e o exemplo do Irã, que correu com o xá, após décadas de apoio dos EUA e Grã-Bretanha, interessados na compra de petróleo barato.
Hussein afirma que o Irã tem "peso político muito grande", ainda não compreendido por árabes e americanos. "O país continua hoje forte e ativo na região. Árabes e os americanos deveriam investir em mais diplomacia e política com o país", afirma. A seu ver, os Estados Unidos deveriam voltar a ter boas relações com o governo iraniano para contar com sua ajuda na estabilização na região. "O Irã tem muito a contribuir com o Iraque pós-Saddam, pois a maioria da população iraquiana é xiita", diz ele.
Mesma opinião tem o professor Mehdi Sanaei, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Teerã. Ele acrescenta que a revolução iraniana continua a dar ao país um papel ativo na região: "Movimentos islâmicos no Oriente Médio se inspiraram no Irã para criar suas agendas políticas, mas não são necessariamente mera cópia. O principal ponto comum foi a ideia de resistência contra a dominação estrangeira", disse Sanaei à BBC - Brasil.
Para ele, os grupos políticos no Iraque, Líbano e territórios palestinos tiveram aproximação natural com o Irã por sua "importância no cenário da região e por ser dos últimos remanescentes de resistências aos EUA e Israel". "Vemos o grupo libanês Hezbollah e o palestino Hamas, que perceberam a falta de ação de governos árabes e suas alianças com os americanos. Isso trouxe o Irã como centro da ideia de resistência e de apoio político-financeiro".
"Embora haja partidos reformistas que defendem aproximação maior, o Irã continuou a ter péssimas relações com muitos países ocidentais", declarou à BBC - Brasil o analista libanês Ibrahim Moussawi. Ele afirmou que esse isolamento fez com que Irã tentasse atingir os interesses dos EUA por meio de financiando a grupos antiamericanos em diversos países árabes. Os EUA e aliados erraram ao isolar o Irã, mas os iranianos também falharam ao reagir com mais radicalismo", afirma Moussawi.
De acordo com informações da Reuters, o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou na segunda-feira, dia 10, que vê a possibilidade de abertura diplomática com o Irã nos próximos meses. “Minha expectativa é de que estaremos olhando para aberturas que podem ser criadas. Poderemos sentar à mesa frente a frente. Aberturas diplomáticas permitirão mover nossa política em nova direção – disse Obama durante entrevista coletiva.
Logo no dia seguinte, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, informou que seu país está sensível a uma mudança fundamental na abordagem dos Estados Unidos e se considera pronto a diálogo baseado em mútuo respeito: “A nova administração dos EUA anunciou que quer produzir mudança e perseguir o caminho do diálogo – sustentou Ahmadinejad, durante comício em comemoração ao 30° aniversário da Revolução Islâmica.
– Está bem claro que uma mudança real deve ser fundamental e não tática. A nação iraniana saúda mudanças reais. A nação iraniana está pronta para manter conversas, mas conversas sob atmosfera justa com respeito mútuo – disse.
O Irã celebra a vitória da revolução no dia 22 do mês iraniano de Bahman, que neste ano caiu em 10 de fevereiro. Essa data marcou em 1979 o colapso do governo do xá Reza Pahlevi. Washington rompeu relações diplomáticas com Teerã em 1980, quando estudantes radicais atacaram a embaixada dos EUA e mantiveram 52 norte-americanos reféns por 444 dias. Desde então, os dois países são fios desencapados, correndo em paralelo.
Com cerca de 80 milhões de habitantes, o Egito está hoje entre os países da região mais beneficiados pelos dólares do petróleo carreados pela Arábia Saudita e por Emirados Árabes. Os Estados Unidos lideraram a remessa de dinheiro para lá no ano passado e corporações Citibank, General Motors e Procter & Gamble têm expressivos investimentos no país. Derrotado na Guerra dos Seis Dias por Israel, em 67, o Egito reconheceu oficialmente o estado judeu.
O capital estrangeiro, antes concentrado no petróleo e na gasolina, foi-se diversificando para fábricas de fertilizantes, produtos químicos e bens de consumo. No ano passado, mais de um terço do investimento estrangeiro foi destinado à privatização das grandes empresas estatais, como o Banco de Alexandria e a loja de departamentos Omar Effendi. As privatizações geraram desemprego em face da redução de infladas folhas de pagamento das estatais.
Nos últimos cinco anos, no entanto, a taxa oficial de desemprego caiu de 11% para cerca de 9%. Mesmo assim, existe falta de emprego. O governo egípcio não quantifica o efeito dos investimentos estrangeiros sobre o emprego. Mas a população cresce rapidamente o país precisa criar 600 mil novos postos de trabalho a cada ano para acompanhar o número de pessoas que entram no mercado. O PIB egípcio gira em torno de U$ 200 bilhões.
Com população inferior a 30 milhões de pessoas, segundo estimativa da CIA, a Arábia Saudita tem produto interno bruto superior ao dobro do egípcio e vai a U$ 500 bilhões. Nos últimos seis anos, o país tem destinado cerca de U$ 500 milhões anuais à Palestina, como apoio orçamentário. Tem também socorrido refugiados palestinos com contribuições para o órgão da ONU encarregado de obras públicas e socorro (UNRWA) – outros U$ 500 milhões entre 2007 e 2009. Além de liberar U$ 230 milhões para o desenvolvimento no Afeganistão, prometeu $ 1 bilhão em exportação e garantias de empréstimos bonificados ao Iraque, outros U$ 153 milhões em créditos à exportação para o Paquistão.e ainda U$ 1,59 bilhões para o Líbano.
Ainda assim, a monarquia saudita teme contágio da influência do Irã. O movimento islâmico do aiatolá Khomeini, que completou 30 anos nesta semana, liderou o movimento popular responsável pelo fim da dinastia Pahlevi e resultou no exílio do xá. Para o analista paquistanês Iftikhar Hussein, em entrevista à BBC - Brasil, “o Irã está hoje está no centro das questões do Oriente Médio e a maior herança da revolução é a divisão dos árabes”.
"Mesmo entre os regimes árabes, há divisões sobre a forma de lidar com os iranianos. Existem dois blocos: um liderado por Catar e Síria, bem relacionados com o Irã, e outro encabeçado pelo Egito e Arábia Saudita, alinhados com o Ocidente e hostis aos iranianos", afirma o paquistanês. Na realidade, Egito e Arábia Saudita, ditaduras, temem a influência e o exemplo do Irã, que correu com o xá, após décadas de apoio dos EUA e Grã-Bretanha, interessados na compra de petróleo barato.
Hussein afirma que o Irã tem "peso político muito grande", ainda não compreendido por árabes e americanos. "O país continua hoje forte e ativo na região. Árabes e os americanos deveriam investir em mais diplomacia e política com o país", afirma. A seu ver, os Estados Unidos deveriam voltar a ter boas relações com o governo iraniano para contar com sua ajuda na estabilização na região. "O Irã tem muito a contribuir com o Iraque pós-Saddam, pois a maioria da população iraquiana é xiita", diz ele.
Mesma opinião tem o professor Mehdi Sanaei, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Teerã. Ele acrescenta que a revolução iraniana continua a dar ao país um papel ativo na região: "Movimentos islâmicos no Oriente Médio se inspiraram no Irã para criar suas agendas políticas, mas não são necessariamente mera cópia. O principal ponto comum foi a ideia de resistência contra a dominação estrangeira", disse Sanaei à BBC - Brasil.
Para ele, os grupos políticos no Iraque, Líbano e territórios palestinos tiveram aproximação natural com o Irã por sua "importância no cenário da região e por ser dos últimos remanescentes de resistências aos EUA e Israel". "Vemos o grupo libanês Hezbollah e o palestino Hamas, que perceberam a falta de ação de governos árabes e suas alianças com os americanos. Isso trouxe o Irã como centro da ideia de resistência e de apoio político-financeiro".
"Embora haja partidos reformistas que defendem aproximação maior, o Irã continuou a ter péssimas relações com muitos países ocidentais", declarou à BBC - Brasil o analista libanês Ibrahim Moussawi. Ele afirmou que esse isolamento fez com que Irã tentasse atingir os interesses dos EUA por meio de financiando a grupos antiamericanos em diversos países árabes. Os EUA e aliados erraram ao isolar o Irã, mas os iranianos também falharam ao reagir com mais radicalismo", afirma Moussawi.
De acordo com informações da Reuters, o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou na segunda-feira, dia 10, que vê a possibilidade de abertura diplomática com o Irã nos próximos meses. “Minha expectativa é de que estaremos olhando para aberturas que podem ser criadas. Poderemos sentar à mesa frente a frente. Aberturas diplomáticas permitirão mover nossa política em nova direção – disse Obama durante entrevista coletiva.
Logo no dia seguinte, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, informou que seu país está sensível a uma mudança fundamental na abordagem dos Estados Unidos e se considera pronto a diálogo baseado em mútuo respeito: “A nova administração dos EUA anunciou que quer produzir mudança e perseguir o caminho do diálogo – sustentou Ahmadinejad, durante comício em comemoração ao 30° aniversário da Revolução Islâmica.
– Está bem claro que uma mudança real deve ser fundamental e não tática. A nação iraniana saúda mudanças reais. A nação iraniana está pronta para manter conversas, mas conversas sob atmosfera justa com respeito mútuo – disse.
O Irã celebra a vitória da revolução no dia 22 do mês iraniano de Bahman, que neste ano caiu em 10 de fevereiro. Essa data marcou em 1979 o colapso do governo do xá Reza Pahlevi. Washington rompeu relações diplomáticas com Teerã em 1980, quando estudantes radicais atacaram a embaixada dos EUA e mantiveram 52 norte-americanos reféns por 444 dias. Desde então, os dois países são fios desencapados, correndo em paralelo.


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